Trocar de celular é o momento mais arriscado, e o Clone2Pwn prova isso
Sete aplicativos de transferência para Android, com mais de 12 bilhões de downloads, tinham falhas. Há correções, mas essas ferramentas merecem o escrutínio dado aos apps de banco.
Imagem gerada por IA
Qual aplicativo do seu celular lida com os dados mais sensíveis que você tem? Provavelmente não é o do seu banco. É o que você abre uma vez a cada alguns anos, meio distraído, enquanto tira um aparelho novo da caixa: a ferramenta de "copiar tudo do meu celular antigo".
Essa ferramenta acabou de passar por uma auditoria dura. Pesquisadores da TU Graz e do centro austríaco A-SIT analisaram os aplicativos de migração de sete fabricantes: Google, Samsung, Vivo, Xiaomi, Oppo, Huawei e Honor. Segundo a TU Graz, eles encontraram vulnerabilidades em todos que permitiam a um invasor dentro do alcance do Wi-Fi espionar ou manipular a transferência. Em ambientes fechados, esse alcance é de cerca de 20 a 45 metros, e o equipamento custava menos de 100 euros. O trabalho, chamado Clone2Pwn, foi apresentado na ESORICS 2026.
O material exposto incluía mensagens de texto, contatos, fotos, dados de saúde, credenciais de Wi-Fi salvas e senhas de aplicativos. Em alguns casos, pacotes de aplicativos adulterados podiam injetar malware no celular novo. Os sete fabricantes já lançaram atualizações de segurança e confirmaram a gravidade dos problemas, cinco deles classificados como altos.
A conveniência é a vulnerabilidade
Essas ferramentas existem para mover quase tudo do seu celular de uma só vez, sem servidor externo no meio, por um link direto de Wi-Fi entre dois aparelhos. É uma ótima experiência do usuário. Mas também é, por projeto, um fluxo concentrado dos dados mais valiosos que você tem, trafegando por ondas de rádio para qualquer um perto o bastante para escutar. Quando os pesquisadores dizem que quase todo o conteúdo de um celular é transferido, isso não é nota de rodapé. É o modelo de ameaça.
Na nossa visão, a indústria tratou esses aplicativos como um recurso simpático de boas-vindas, não como software crítico para a segurança. Ninguém lança um módulo de pagamentos com essa atitude. Mesmo assim, o aplicativo de migração lida com as chaves de tudo isso e, segundo os pesquisadores, vem pré-instalado em quase todos os aparelhos Android.
"Todos os sete" é o número que importa
Doze bilhões de downloads, total que a Tech Xplore informa para os aplicativos examinados, rende manchete, mas o dado mais revelador é sete de sete. Não foi um fabricante descuidado. Parece um ponto cego de toda a categoria: todos construíram o mesmo tipo de ferramenta, e todos a deixaram vulnerável. Isso aponta para um hábito de projeto compartilhado, não para um bug isolado. Achamos que essa é a parte incômoda, e por isso desconfiaríamos de tratar "corrigido" como "resolvido".
Para ser justo, os fabricantes merecem algum crédito. A equipe seguiu a divulgação responsável, os fabricantes confirmaram os problemas e todos lançaram correções. É assim que deve funcionar. Mas, na nossa opinião, uma correção não equivale a uma revisão de segurança antes do lançamento, e é esse hábito que gostaríamos de ver mudar.
Onde o risco é real e onde não é
Sem exagero. O ataque exige proximidade, e nada na documentação sugere exploração em massa. Para a maioria das pessoas que trocam de celular em casa, o risco prático provavelmente é modesto. Os próprios pesquisadores apontam lugares onde muitas transferências acontecem todo dia, como lojas de eletrônicos e lojas de operadoras. Se um funcionário se oferece para passar seus dados para você, esse é exatamente o tipo de ambiente que eles destacam como especialmente vulnerável.
Há também um custo oculto: em alguns casos a correção pode exigir a atualização de todo o sistema operacional, não só do aplicativo. Suspeitamos que isso complique mais a vida de quem tem celulares antigos e negligenciados, justamente quem tem mais chance de estar trocando por um novo.
O que fazer antes da sua próxima troca
O conselho dos pesquisadores é simples, e nós o seguiríamos à risca: certifique-se de que a versão mais recente do aplicativo de migração está instalada nos dois aparelhos e instale todas as atualizações relevantes, inclusive a do próprio sistema, se necessário. Faça isso antes de começar, não depois. Se puder, faça a transferência em casa e não numa loja cheia.
Nosso veredito: o Clone2Pwn não é motivo para evitar esses aplicativos, já que continuam sendo a forma mais fácil de fazer a mudança digital. É um motivo para os fabricantes darem a eles a mesma modelagem de ameaças, as mesmas auditorias e a mesma disciplina de atualização de uma carteira digital ou de um gerenciador de senhas. O momento em que você troca de celular deveria ser o mais bem protegido da sua vida digital. Hoje, é um dos menos.
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